Moura Company 14 anos a servir Cabo Verde Hoje tem uma frota de 120 autocarros e dá emprego a 200 chefes de família. Apesar do reconhecimento internacional, o empresário lamenta que o governo vem desde 2001 criando mecanismos deliberados com vista a asfixiar a transportadora. A transportadora Moura Company assinala no dia 29, domingo, 14 anos de existência. A Moura, como a empresa de transporte público é vulgarmente conhecida, começou a operar em Março de 1996, na zona urbana da cidade da Praia. Dispunha então de uma modesta frota composta por 5 autocarros, todos de segunda mão que o ex-imigrante Antonio Moura trouxe consigo dos Estados Unidos quando decidiu regressar e investir toda a sua poupança no seu país, atendendo ao convite do então primeiro-ministro Carlos Veiga. “ Deu-me toda a garantia para criar a minha empresa em Cabo Verde, da qual, apesar de todos os constrangimentos surgidos com o decorrer dos tempos, não me arrependo”, recorda o empresário. Desses cinco autocarros, apenas um está ainda em actividade. Os restantes constituem hoje peças de museu que a Moura Company guarda como troféus da empresa. Entretanto, os primeiros anos da empresa não foram muito auspiciosos. A Moura Company tinha de fazer face a duas concorrentes mais apetrechadas e há muito tempo estabelecidas no mercado: a Solatlântico e a estatal Transcor que liderava o negócio. Como recorda António Moura, quando os autocarros começaram a operar, circulavam rumores que a empresa não aguentaria nem três meses no mercado. A Moura saiu-se bem e cresceu exponencialmente: hoje dispõe de uma frota de mais de 120 autocarros, transportando mensalmente,como sublinha com orgulho o seu presidente, mais do dobro da população de Cabo Verde, “sem contar com os passes e os agentes da Polícia Nacional que viajam a título gratuito”. Apesar da crise, a empresa dá trabalho a mais de 200 chefes de família. São números que se deixam apresentar em qualquer parte, mas para o self-made man nem tudo correu do seu agrado em todos estes anos. “O balanço dos 14 anos tem uma parte positiva e uma parte negativa devido a alguns constrangimentos por que a empresa tem passado de 2001 até agora”, ressalva. Em tempos mais recuados a Moura chegou a empregar cerca de 360 chefes de família. Horário único afectou a empresa Há pouco tempo a empresa viu-se forçada a despedir mais de 50 trabalhadores, o que nas palavras do seu presidente deve-se menos à crise financeira internacional do que “à grande perseguição do governo contra a sua empresa”. Até porque, no entender de António Moura, devido à especificidade do serviço que prestam, a crise não afecta as transportadoras públicas. O que baralhou as contas da empresa, refere, foi a implementação do horário único. “É claro que este novo horário afectou a empresa, porque antes as pessoas para irem ao emprego davam 4 voltas e agora só são duas”. Em consequência a Moura Company retirou das linhas 50 por cento dos seus autocarros. Em contrapartida introduziu nas horas de ponta autocarros de maior porte nomeadamente às 8 horas de manhã e às três da tarde. Concorrência desleal dos Hiaces A concorrência desleal por parte dos Hiaces, é segundo António Moura uma dor de cabeça que vem afligindo a empresa desde 2001. “É uma concorrência que foi preparada para acabar com a Moura Company”, apontando o dedo ao governo que, na sua opinião, não cumpre as próprias leis, nomeadamente a interdição de circulação dos Hiaces nos espaços urbanos. “ Apesar das queixas da minha companhia e de uma outra, o governo continua a fazer orelhas moucas às nossas petições. Nenhum empresário da área fica satisfeito com esta situação: o governo não pode utilizar o poder que detém para abusar das empresas”, sublinha, lembrando que os Hiaces estão licenciados para operarem nos espaços interurbanos. Além de operarem à revelia da lei esta concorrência desleal é agravada com a aplicação por parte dos Hiaces de uma tarifa ligeiramente inferior à dos autocarros de linha. “Como esta pequena diferença é muito para a maioria dos passageiros, os nossos autocarros acabam por viajar quase vazios”, alude. António Moura indica que esta situação está igualmente na origem da redução do efectivo da empresa nas linhas. Reconhecimento internacional De acordo com António Moura, apesar de o objectivo primordial da sua empresa ser o lucro, a Moura contribui para maior mobilidade das pessoas na cidade da Praia seja para a deslocação aos seus postos de trabalho, seja para venderem os seus produtos. “Entretanto, nós temos um governo que ignora o trabalho que a Moura tem feito em prol do desenvolvimento social e económico de Cabo Verde para criar mecanismos deliberados e com acções persecutórias com vista a asfixiar a empresa”, sublinha. Se como afirma, o trabalho da empresa não é devidamente reconhecida pelo governo, os sucessivos prémios em reconhecimento da qualidade dos serviços prestados, atribuídos em 2005 Paris, em 2006 Frankfurt e em 2007 Geneve, ilustra o respeito e admiração que a empresa goza junto das instituições internacionais. Outro reconhecimento internacional chegou da Guiné-Bissau, onde o presidente da Moura Company se encontra neste momento a convite do governo daquele país africano para estudar as formas de resolver os problemas de ligação terrestre e marítima cujo contrato de concessão será brevemente assinado. António Monteiro
A transportadora pública Moura Company assinala no próximo dia 29, domingo, 14 anos de existência. No balanço deste lapso de tempo, o seu presidente António Moura, recorda os primeiros anos da empresa que arrancou com cinco autocarros.
“Assumimos um gasto enorme, sem nenhum retorno. Isso levou-nos a ter menos autocarros a operar”. Face a todas estas situações Moura afirma secamente: “A crise que nós temos é deste governo”. Aponta a falta de incentivos, a concorrência desleal por parte dos Hiaces, o transporte gratuito dos agentes da Polícia Nacional e da autoridade do Estado como alguns dos factores tendentes a sufocar financeiramente a Moura Company. Sem poder quantificar quantos agentes utilizam diariamente os serviços da Moura Company, António Moura, engloba neste número guardas-fiscais, polícia de trânsito, polícia de segurança pública, polícia marítima, agentes florestais, guardas prisionais, agentes reformados, oficias de diligência e inspectores das finanças. Neste singular, recorda que no tempo da extinta transportadora estatal Transcor só era permitido o transporte de três agentes fardados. “ Os que viessem depois tinham que pagar. Não contente com isso, o governo subsidiava a Transcor de diversas formas”, diz, questionando porque é que o governo não deveria subsidiar a Moura Company que presta um serviço imprescindível ao mercado. “Não é correcto que a uma empresa privada, que assume compromissos com instituições financeiras nacionais e internacionais para que tenhamos uma transportadora moderna no país, não lhe sejam criadas todas as condições previstas pela lei para poder operar. “Aqui é o próprio governo que obriga a nossa empresa a ser deficitária como conseguiram levar a TACV à bancarrota”, anota.










